| Nós três |
Minha família não tem tradição, ou melhor, o hábito da leitura tão pouco da escrita. Mesmo assim, meus pais me coloram para estudar na escolinha de tia Paizinha que funcionava na casa dela, acho que nem nome tinha. Dessa época só tenho certeza de uma coisa, a ansiedade que senti ao ir pela primeira vez para a escola e o desejo de vestir aquela farda, tipo jardineira de saia plissada e de quando minha mãe pendurou a lancheira em mim e fomos eu, mãe e meu irmão mais velho que também estudava comigo.
Aos seis anos fui estudar na escola Miguel Azevedo. No ano seguinte passei a estudar na Escola Jarina Maia. Tive que repetir a 1ª série, pois ainda não tinha sete anos.
Foi na 2ª série que aconteceu a reviravolta na minha vida escolar. Eu estudava com a professora Emídia e não conseguia me adaptar à turma, então, já admiradora da outra educadora que também lecionava a mesma série pedi para minha mãe me trocar de turma. Recordo-me bem quando fomos conversar com a tal professora e ela disse que me aceitaria se eu soubesse ler. Então ela pegou um livro de um aluno da classe e pediu que eu lesse e eu trêmula li: Novo Nordeste. Este era o nome do livro o qual ela exigiu que meus pais comprassem para eu poder me juntar aos demais da classe. Tia Iranete é nome da minha desejada professora.
Era muito comum tia Iranete pedir para lermos determinados textos em casa para no outro dia retomar a leitura, mas o que me fascinava eram as visitas à biblioteca da escola, já que em casa eu não dispunha de livros e as poucas vezes que nossa tia levava para sala um aparelho como um data show para narrar histórias dos clássicos infantis.
Por desejo, quase que tão somente meu como o de trocar de turma na infância me trazendo a “salvação”, prestei vestibular para Letras nas FAINTVISA. Fui aprovada e por questões financeiras cursei apenas um período e tranquei a faculdade. Mais uma vez essa decisão mudaria meu destino para melhor. Ao reiniciar me uni à turma: lifelong learners, a melhor turma da instituição até então.
Foi na faculdade, um pouco tardio, que realmente percebi a importância da leitura para a vida. Do temido professor de leitura e produção de texto, Hugo Monteiro recebi uma observação que tive como um elogio: “Você tem traços de Clarice Lispector”. Foi lá também que me tornei amiga do jovem poeta, Emerson Lima o qual me surpreendeu ao me presentear com um conto em minha homenagem intitulado de: “A Obra de Arte e o Poeta”.
Profissionalmente tive duas grandes surpresas, por duas vezes que participei juntamente com meus alunos do Programa Escrevendo O futuro fomos semifinalistas da fase regional no gênero poesia.
Reconheço que inda não dei o máximo de mim, algo me inquieta, preciso me aprofundar na leitura direcionada não sei ainda de quê, só sei que preciso registrar, deixar algo que jamais será esquecido, fazer a diferença. Talvez escrever sobre mim ... Meus pensamentos confusos...
Sei que a história do homem é construída com o tempo e que ainda é tempo e que não há tempo nem homem sem memórias e se essas memórias não ficam registradas difícil será resgatá-las um dia para compor a saga e a inquietude de um eu que não quer calar, mas que até então permanece dormindo como um vulcão que ferve por dentro e que poderá entrar em erupção algum dia ou permanecer quieto para sempre sem que a humanidade lhe dê atenção ou simplesmente a atençaõ necessária. Assim sinto-me quando penso na minha vida-leitura-e escrita.